A Ciência de Dr. Stone - Parte 9: Navegação

Por Phos em sábado, 20 de maio de 2023

 Para finalizar nossa análise da Ciência de Dr. Stone no arco da Era de Exploração só ficou faltando as tecnologias de navegação, que é o que cobrirei nesse post!

O mapa de tecnologias e invenções para a criação do navio Perseus é o seguinte:


Alguns desses itens acima eu não vou cobrir porque não há muito o que falar deles, como o mastro e o motor.

Uma das invenções mais avançadas nessa etapa do mangá foi a criação da tela. O princípio básico de uma tela (e uma televisão está inclusa nisso) é o tubo de raios catódicos, ou tubo de Braun (que, se não me engano, é como eles chamam no mangá). É um tubo com vácuo dentro, em uma ponta há um dispositivo que emite elétrons e na outra ponta há a parte da tela, que deve ser coberta por uma película que reage justamente aos elétrons, mudando de cor ou intensidade de brilho a depender do choque com essas partículas. O segredo do tubo de raios catódicos é que ele fica dentro de um eletroímã, então controlando quando e onde esse imã liga e desliga é possível manipular o caminho que os elétrons farão, definindo em que parte da tela eles vão se chocar. É fazendo esse controle do feixe de elétrons que as imagens são formadas.


Por ser uma invenção tão avançada ela é extremamente complicada de construir e aqui eu duvido que possa ser feita na situação que vimos no mangá. O tubo pode até ser construído e muitos cientistas fizeram os seus em casa para conduzir experimentos, mas os circuitos elétricos para controlar o feixe de elétrons ao ponto de gerar imagens coerentes em uma tela precisa ser tão preciso e bem feito que dificilmente seria possível naquela vila.


Passando para uma invenção mais plausível, a torre de sinal é algo que pode ser feito em casa, basta uma fonte de eletricidade bem forte. Senku optou por fazer uma torre de sinal em formato de toro (rosquinha), como vocês podem ver:


Eu acredito que ele tenha escolhido esse formato para emitir sinais em todas as direções, sem uma preferencial. Isso é bem comum em torres de sinal de telefone, por exemplo, já que o ideal é jogar sinal para todo lado mesmo. No entanto, eu acredito que o formato que está mais no nosso imaginário é esse:


Porque assim tanto a emissão quanto a recepção de sinais fica bem precisa, já que está focada em um único ponto. Para cobrir mais área, basta que a torre fique girando, assim esse foco móvel consegue cobrir todos os arredores. Eu realmente não sei se existe uma diferença muito grande na eficiência desses formatos, me informem nos comentários quem souber.

Usando a torre é possível criar um radar. O radar funciona assim: a torre emite um sinal de ondas eletromagnéticas em uma direção; se uma parte dessas ondas atingir algum objeto sólido ela vai rebater e voltar para a torre, assim a captação detecta a presença de algo naquela direção.  É para captar esse retorno que o radar tem aquele formato de parabólica.

O que o Senku fez no mangá foi conectar o retorno do radar na sua tela, assim ele poderia saber especificamente onde o sinal refletiu e, portanto, descobrir onde está o alvo detectado. Com isso é possível saber também a distância, basta calcular quanto tempo o sinal levou para sair e voltar. Tendo o tempo e sabendo a velocidade com que as ondas se movem (a velocidade da luz) é possível calcular a distância.


Uma torre pode captar não só o sinais emitidos por ela própria no radar, mas pode ainda captar sinais enviados por outras fontes. Foi assim que Senku e seus amigos receberam o famoso sinal WHY, que tem a ver com todo o processo de petrificação e que eu explico melhor em outro post.

Mas como estamos falando de navegação, existe uma outra ferramenta que pode ser mais útil: o sonar. O sonar possui o exato funcionamento do radar, a única diferença é que ele não usa ondas eletromagnéticas, o sonar usa ondas sonoras. Isso traz muitas vantagens na navegação porque ondas eletromagnéticas sofrem um pouco para se propagar na água, podendo passar por processos ópticos como refração e isso pode acarretar em distorções na detecção. Já as ondas sonoras viajam com muito mais tranquilidade, sem distúrbios e por distâncias maiores. Tem mais, lembram-se quando eu disse que as torres de radar podem captar sinais externos? Isso significa que elas podem ser rastreadas por radares de outras pessoas. Já o sonar não, é possível fazer um equipamento que emita sem ser detectado, o que é perfeito quando se trata, por exemplo, de submarinos.

Bom, acho que já escrevi muito até aqui, espero que tenham gostado de mais essa parte da série!

Confira todas as partes que já fiz (é só clicar na imagem):


https://universoanimanga.blogspot.com/2018/12/a-ciencia-de-dr-stone.html
Parte 1
https://universoanimanga.blogspot.com/2019/12/a-ciencia-de-dr-stone-parte-2.html
Parte 2
https://universoanimanga.blogspot.com/2020/01/a-ciencia-de-dr-stone-parte-3-remedio.html
Parte 3: Especial da criação de Remédios

https://universoanimanga.blogspot.com/2020/03/a-ciencia-de-dr-stone-parte-4.html
Parte 4

https://universoanimanga.blogspot.com/2020/04/a-ciencia-de-dr-stone-parte-5-especial.html
Parte 5: Especial da criação do celular
Parte 6 



Parte 7: Armas de guerra
Parte 8



Até a próxima postagem!

Quimeras humanas são possíveis? - A Ciência de Fullmetal Alchemist

Por Phos em quinta-feira, 13 de abril de 2023
Alguns anos atrás circulou bastante a notícia de que o Japão tinha permitido a criação do que alguns jornais chamaram de "quimeras humanas". Eu entendo que esses jornais precisam de manchetes alarmantes para atrair leitores, porém precisamos tomar cuidado com esses termos. Baseado nisso, vou explicar o que foi essa notícia usando como base a ciência de Fullmetal Alchemist e falar sobre quimeras humanas!




Em Fullmetal Alchemist a alquimia enfrenta vários tabus. Qualquer um que tenta realizar esses feitos é condenado judicialmente ou socialmente, afinal são ações consideradas muito imorais e antiéticas. Temos, por exemplo, a transmutação humana que comentei em outra postagem. Mas agora quero focar em outro tabu: criar quimeras humanas.

Uma quimera é, no sentido mais simples, uma mistura entre animais. Na mitologia grega havia várias descrições de bichos assim, como a de um leão com patas de touro e uma serpente no lugar do rabo. É fácil imaginar como essas ideias surgiram no imaginário das pessoas, afinal parece a mistura de muitos medos em uma coisa só. Esse tipo de mistura puramente animalesca em Fullmetal é até aceitável, como podemos ver na criatura na imagem abaixo, que é uma quimera usada como guarda. O tabu mesmo era se um dos animais misturados fosse um humano.


No mangá tivemos alguns exemplos que deram ""certo"" e uns que funcionaram, porém ficaram um tanto... traumatizantes. Quem aí que leu (ou assistiu o anime) não se lembra da Nina Tucker?
 

A gangue do Ganância tinha quimeras humanas que conseguiam lidar bem com as habilidades animais que haviam ganhado com a mutação. Major Kimbley tinha quimeras humanas como guarda-costas. Só que todos esses eram humanos normais que conseguiam desenvolver as habilidades do animal ou assumir uma forma híbrida e depois voltar ao normal.
O que o alquimista federal Shou Tucker tentava obter, e de certa forma conseguiu com a filha, era uma quimera animalesca capaz de falar e demonstrar consciência humana.



E agora, quais as possibilidades científicas?


Se formos bem abrangentes, nós já somos quimeras. Certos vírus, bactérias e fungos são capazes de alterar o DNA de animais, pois é assim que eles sobrevivem. Por exemplo, certos vírus mudam no DNA o jeito como o corpo produz células, alterando para um jeito que os favoreça. E pode acontecer de, quando os animais passam seu DNA adiante para os filhos, pedaços do que foi inserido pelos vírus também passarem. Milênios atrás, esses seres fizeram isso tantas vezes que outros animais acabaram ficando com muitos genes de vírus e bactérias no próprio código genético. 

Um exemplo que eu acho incrível é que só é possível para as mulheres humanas gerarem um bebê por conta do material genético de vírus que se mesclou ao DNA de mamíferos milhões de anos atrás. Afinal, o bebê é um organismo nascendo no corpo de outro, então o que impede esse corpo hospedeiro de tentar expulsá-lo? Quem bloqueou isso foi justamente esse pedaço de material genético do vírus (que é alguém que sabe muito bem como se proteger contra ser expulso do corpo). Mas aqui estamos falando de quimeras genéticas e não é tão visualmente chocante. Vamos aumentar uma etapa.

Um caso mais comum do que imaginamos acontece quando, durante a gestação de gêmeos, um dos bebês morre e o outro acaba absorvendo ele por completo. Algumas vezes isso pode se manifestar no bebê sobrevivente como alguma parte extra (um mamilo, por exemplo); algo mais simples, como uma verruga, ou fica completamente imperceptível. Ainda que nada mude no corpo, pode acontecer da pessoa ter dois DNAs. Um exemplo muito conhecido é o da cantora e modelo Taylor Muhl, que absorveu a sua irmã gêmea morta no útero e nasceu com dois tons de pele diferentes. Antes ela achava que era apenas uma grande marca de nascença, até descobrir que os dois lados tinham DNAs diferentes, um que era seu mesmo e outro que seria o da sua falecida irmã.


Existem vários outros exemplos ainda, vários com plantas inclusive, mas tenho certeza que poucos de vocês vieram aqui ler sobre isso. Vocês querem as quimeras monstruosas, pessoas com cabeça de outros animais e coisas assim, né?

Acontece que existe esse tabu na vida real também. E eu até acho que faz sentido. Pense comigo, para fazer um experimento como esse é preciso submeter uma pessoa a vários procedimentos cirúrgicos, processos que podem nem funcionar direito. O mesmo para um animal. Então, para quê fazer uma pessoa sofrer tanto sendo que o resultado não vai trazer nada de produtivo a não ser um freak show?

O que foi autorizado no Japão é permitir que órgãos humanos sejam gerados em animais. Funciona assim: os cientistas pegam as células-tronco (que são capazes de se transformar em outras células) de um humano e as implantam em um animal, fazendo as modificações necessárias para o que quiserem desenvolver. E então esse animal vai nutrir e crescer essas células até formarem um órgão novo. Com isso é possível, por exemplo, gerar um fígado humano dentro de um porco. Quando a pessoa precisar de um fígado, ao invés de esperar um doador compatível, é só ir até uma "fazenda de fígados" onde haverá dezenas de tipos disponíveis em milhares de porcos criados com essa função. Existe uma discussão de ética animal envolvida nisso, mas não quero entrar nesse assunto porque o texto já está bem longo.

Ok, vamos às quimeras pra valer. A partir de agora vou usar "quimera" como a mistura monstruosa de animais, não mais no sentido que vimos anteriormente.

A primeira tentativa a se imaginar é por meio da relação sexual, esperando que a cria seja uma mistura dos pais. Ou, de maneira menos direta, por inseminação artificial. Ilya Ivanov, um cientista soviético, se tornou especialista nessa área por volta de 1920 e por meio de inseminação conseguiu gerar híbridos de espécies diferentes como burros e zebras, entre outros. E ele até tentou fazer híbridos inseminando chimpanzés com espermatozoides humanos, o que não deu certo. Ivanov queria tentar o contrário, inseminar mulheres com o espermatozoide de macacos, porém seus animais morreram antes que ele pudesse começar o experimento e (por questões políticas da União Soviética) ele foi preso e exilado. Nesse meio tempo há registros de que ele tentou inseminar humanos em Guiné, na África, mas até onde sabemos ele não foi autorizado.

O ligre é uma mistura entre leão e tigre

Em 1977, com a microbiologia mais desenvolvida, foi testado se o espermatozoide humano seria capaz de fecundar óvulos de primatas como chimpanzés, que são os nossos parentes mais próximos. E o resultado foi: não é possível. Sem nem com primatas é possível, podemos esquecer com outros animais. Inclusive, todos os híbridos (como os ligres) são entre espécies próximas, ninguém consegue gerar uma mistura de ave e felino, por exemplo. Portanto, nenhuma quimera pode nascer da relação sexual entre um humano e um animal. Resta então modificar seres vivos para unir partes um no outro.

Aí entra outro empecilho: a incompatibilidade. O corpo humano, assim como o de qualquer outro animal, tem suas características específicas e quase nunca elas são compatíveis entre espécies diferentes. Primeiro vem o trabalho colossal que seria unir cirurgicamente partes de animais diferentes, são ossos que não batem no tamanho e densidade, fibras musculares variadas, vasos sanguíneos incompatíveis. E mesmo que isso seja feito e o membro implantado se encaixe, ele dificilmente vai ficar funcional. Pelo menos não por muito tempo. Eu explico:

Nosso DNA dita como o corpo vai funcionar, como se ele fosse o código de programação de um software. É graças a ele que renovamos nossas células constantemente de maneira correta, com seu código dizendo onde, quando e como serão as funções delas. Um membro animal diferente terá células com DNA diferente, então vai se comportar em descompasso com o resto do corpo. Imagine o caos biológico que isso seria. O que eu acho que irá acontecer é que o membro simplesmente começaria a se decompor como se seu dono estivesse morto. E pode acontecer o principal na incompatibilidade: o corpo vai identificar aquele DNA diferente como um invasor e fará de tudo para destruí-lo, essa é a chamada rejeição. Se isso já acontece até com órgãos transplantados de humano pra humano, o que seria dos membros animais.

Então a conclusão é que quimeras humanas no sentido de mistura entre humanos e animais ainda não existe e muito provavelmente nunca será possível por questões de incompatibilidade, afinal são criaturas completamente diferentes em vários níveis, em especial na genética.

Esse assunto rende muito mais discussões e eu até tinha mais coisas para comentar, mas acho que já me alonguei demais, então fico por aqui!


Até a próxima postagem!


Fogo azul é mais quente que o fogo normal? - A Ciência dos Animes

Por Phos em sábado, 7 de janeiro de 2023


 Esse mês eu fiz um post da série Individualidades em Detalhes falando sobre o poder das chamas azuis de Dabi e prometi falar mais sobre as propriedades do fogo azul nessa série de Ciência dos Animes.

Isso porque o fogo azul é uma temática bem comum em personagens de animes e outros desenhos animados! Além do Dabi, só para citar alguns ainda temos:

Marco em One Piece, que possui um poder relacionado com uma fênix, o pássaro mitológico de fogo. Com certeza fizeram suas chamas azuis para não confundir com outros dois personagens com poderes ligados ao fogo que iriam interagir com ele, Ace e Akainu.


Temos ainda Rin Okumura em Ao no Exorcist, cujas chamas azuis são tão importantes que são parte do motivo para o nome do mangá. Elas também denotam um ponto importante na história, que é a paternidade do protagonista, de quem ele herdou essas chamas azuladas.


E um dos casos mais famosos é Azula em Avatar: A Lenda de Aang, lá o fogo azul parece ter vários significados que são discutidos até hoje: seria uma forma de refletir a instabilidade da personagem, o seu poder maior que os demais ou simplesmente uma mistura com seu estilo de dobra de raios, entre outras explicações.


Mas vamos à explicação. Primeiro vamos concordar aqui que quando eu escrever "fogo normal" estou me referindo ao que mais estamos acostumados, que é aquele amarelo/laranja/avermelhados das fogueiras e velas.

Fogo é energia liberada durante uma reação química chamada combustão que ocorre quando um material combustível (papel, madeira, etc.) reage com o oxigênio após o pontapé inicial de uma fonte de calor (como um fósforo ou isqueiro). O oxigênio é parte essencial desse processo e explica uma parte da chama azul. Só uma parte porque existem duas maneiras de se obter fogo azul.

A primeira é justamente quando aumenta-se a concentração de oxigênio, ou seja, quando há mais oxigênio participando da reação. Fogo com chamas amareladas normalmente não queimam completamente o combustível (uma combustão incompleta), mas quando há oxigênio o suficiente para alimentar a queima aí sim veremos a chama azul. Por conta da combustão completa só nesse caso é válido afirmar que a chama azul é mais quente que a chama normal. Uma chama normal pode chegar até 1100 graus Celsius, enquanto a chama azul passa isso facilmente: para cortar chapas de aço normalmente são usados maçaricos que precisam emitir uma chama quente o suficiente para derreter aço, para isso é usado o gás acetileno misturado com oxigênio puro, assim há uma queima completa que chega a mais de 3000 graus Celsius! Reparem que tudo isso depende muito do material que está sendo queimado. O que nos leva ao próximo ponto.

A segunda causa de fogo azul depende da composição química do combustível. Para isso precisamos entender um tópico importantíssimo primeiro. Quando o material é aquecido todos os átomos das suas moléculas ganham energia na forma de calor, só que para manter o equilíbrio eles precisam liberar o excesso. Acontece que os átomos liberam esse excesso de energia em intensidades diferentes, justamente porque cada tipo de átomo é diferente um do outro. Átomos de sódio, por exemplo, liberam energia que vemos na cor amarela, átomos de cobre liberam energia numa cor verde-azulada e por aí vai. É assim que são feitos os fogos de artifício coloridos, por exemplo.

Então, nesse caso, nem sempre a chama azul vai significar que o fogo está mais quente, e sim que o que está queimando possui o elemento químico que emite energia nessa cor ao ser queimado. Existe um fenômeno muito interessante chamado lava azul, que na verdade é apenas enxofre queimando ao invés de rochas, gerando chamas azuis ao invés das amarelas da lava convencional (rochas possuem muito silício, que queima amarelo).



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Até a próxima postagem!

O que pode ser a doença dos animes?

Por Phos em sábado, 26 de novembro de 2022

Quantas vezes você já viu em alguma história um personagem com grande papel na trama morrendo de uma doença misteriosa quando nada mais poderia pará-lo? Pedi por exemplos na página do Instagram do blog e vocês me apontaram vários!


Isso é bem comum em filmes e séries em geral, porém a presença constante em animes fez com que recebesse o nome de "doença dos animes" pelo público. Entre os sintomas podem aparecer as olheiras profundas, a pele pálida, mas um deles é indispensável: a tosse com sangue.

De um ponto de vista narrativo esse é um tipo de tropo. Um tropo é um conceito, ideia, evento ou característica que se repete bastante em obras de ficção e por isso recebe um nome para classificá-lo. Entre os tropos que todo mundo deve conhecer temos o "triângulo amoroso", "o herói escolhido", "o mestre velho e sábio", etc.

Não existe um nome fixo para a doença dos animes (além deste, claro), quando ele é usado em outros meios normalmente recebe o nome de "tosse da morte" ou "doença incurável". Trata-se de um dispositivo de roteiro que tem várias funções como:

  • Dar o pontapé na história: a partir de uma doença os personagens podem começar uma grande aventura, como para procurar uma cura ou fazer algo antes que a morte atinja a vítima, por exemplo.
  • Criar um senso de urgência: uma pessoa que está morrendo tem uma contagem regressiva consigo o tempo todo, tornando qualquer trama ao seu redor uma corrida contra o tempo. Isso é bom para criar tramas dinâmicas.
  • Servir como recurso visual: um dos melhores jeitos de mostrar que alguém está doente sem precisar ficar anunciando isso é com recursos visuais, e a tosse com sangue faz isso perfeitamente.
  • Colocar um fim inevitável a um personagem: especialmente em animes existem personagens que são poderosos demais para serem derrotados ou vê-los perder para outro personagem iria diminuir sua notoriedade, então os autores o fazem perecer para algo "natural" e inevitável como uma doença incurável.

Ou seja, essa não é uma exclusividade dos animes por servir muito bem em qualquer tipo de história. E como o foco está na aventura que tudo isso cria, pouco importa qual a doença.

Para essa postagem vamos focar nos animes, estudar algumas exemplos e tentar adivinhar candidatos para a doença.

Antes eu queria tirar de consideração quando um personagem tosse sangue depois de sofrer algum golpe, como acontece bastante em animes mais antigos e se manteve presente até hoje (por exemplo em Cowboy BebopGintama).

Também quero tirar alguns casos que foram plenamente explicados como: em Fullmetal Alchemist Izumi Curtis tosse sangue porque danificou seus órgãos internos em uma tentativa falha de transmutação humana; e em Naruto Hinata cospe bastante sangue por ter seu sistema de chakra danificado por golpes do Neji.


Vamos para alguns exemplos mais misteriosos:

Em Dr. Stone, a personagem Ruri sofria de alguma doença que foi combatida com o remédio de Senku e por pouco não morreu, o que podemos encarar como uma reviravolta nesse tropo. Falo mais sobre esse caso no post sobre a ciência de Dr. Stone.

No Instagram apontaram Gol D. Roger de One Piece como um exemplo e ele recai no quarto tópico que listei ali em cima, que é uma forma de acabar com um personagem poderoso. Ao mesmo tempo ela funciona como pontapé para a história, afinal saber que tinha um fim próximo é que colocou Roger na icônica cena de sua execução anunciando o One Piece ao mundo e dando início a Era dos Piratas.


Me apontaram também Jushiro Ukitake de Bleach, que eu não conheço porque não fui muito longe com o mangá. Mas com uma busca rápida vi que a doença dele também não foi revelada, mas possui uma revelação interessante: ela é uma doença nos pulmões. Guardem isso pra daqui a pouco.


Curiosamente, os exemplos são bons no Big Three, então vou trazer de novo Naruto, que é onde temos dois exemplos. Descobrimos primeiro que Kimimaro possui uma doença que o faz tossir sangue e que ela está matando-o aos poucos. Se não fosse por isso Orochimaru conseguiria o seu corpo e nunca precisaria do Sasuke, então a história seria muito (muito mesmo) diferente no mangá. O mesmo acontece com Itachi, inclusive é essa morte iminente que motiva grande parte de seus planos pensados vários movimentos à frente para que ele conseguisse tudo que queria antes de ser levado pela doença. Nas tosses de Itachi ele leva uma das mãos ao pulmão, o que pode indicar uma doença pulmonar também.


Depois de pesquisar e ver algumas doenças que poderiam ser candidatas a essa doença dos animes eu selecionei três mais prováveis: câncer de pulmão, pneumonia e tuberculose. Gostaria de comentar uma por uma, só que vou avisar já: não chegarei a uma conclusão nesse post! Até porque isso seria impossível, como eu disse antes, a real doença não importa, só o que ela causa, então a explicação mais maluca (porém possível no universo da história) poderia ser usada para justificar. O divertido vai ser especular.

Essas são três doenças que afetam os pulmões e por isso podem acarretar em tosse com sangue, além de debilitar o corpo, tendo como resultado palidez, olhos profundos, etc. Vou explicar cada uma:

O câncer de pulmão acontece quando as células dos tecidos dos pulmões começam a se reproduzir descontroladamente depois de algum defeito em seu genoma. Esses defeitos podem acontecer por questões genéticas herdadas ou fatores externos, como o excesso de fumo ou respirar substâncias nocivas por anos. Essas células cancerígenas crescendo descontroladamente prejudicam o funcionamento das células normais, que é o que gera os problemas do câncer no corpo.

Existem vários sinais de que Roger, Itachi e outros poderiam ter câncer, mas essa é uma doença tão cheia de variáveis que fica difícil inferir com certeza. 

A segunda opção é pneumonia, uma infecção nos pulmões. Essa infecção pode acontecer por várias causas, basta que algum corpo estranho chegue na região do pulmão onde há a troca de ar (entra oxigênio, sai gás carbônico). E os corpos estranhos podem ser vírus, bactérias ou algo inanimado que foi aspirado e acabou parando nessa parte. Hoje em dia temos vacinas e antibióticos para combatê-la, de modo que morrem mais pessoas em situação de debilitação e risco (como quem já sofre de outra doença grave) ou com sistema imunológico frágil (como bebês), ainda assim milhões perecem todo ano de pneumonia, então imaginem como era antes dessas invenções!

E por último temos a tuberculose, que é causada por uma bactéria capaz de infectar vários órgãos, porém principalmente os pulmões. Grande parte dos infectados não demonstram sintomas, existem estimativas de que pelo menos 30% da população mundial possui tuberculose (são mais de 2 bilhões de pessoas)! Possui tratamento, só que ele é bastante demorado e exige antibióticos, o que muita gente acha pesado e por isso há uma parte das pessoas que não o faz até o final, o que pode levar a uma piora na doença e sequente morte.


Souji Okita
foi um espadachim muito habilidoso que existiu na história e foi representado em vários animes, como Shuumatsu no Valkyrie. Em Bakumatsu Kikansetsu Irohanihoheto, ele aparece como vítima de uma doença com os mesmos sintomas clássicos da doença dos animes. Acontece que sabemos qual a doença que ele sofria na vida real e que inclusive foi a causa da sua morte: tuberculose. Existe um personagem em Gintama baseado em Souji Okita, porém é a irmã dele, chamada Mitsuba, que possui tuberculose. Também é tuberculose que mata Magdalia (Mutoh Sayo) em Samurai X (Rurouni Kenshin).

Como eu disse antes, não dá para chegar a uma conclusão. Porém se eu fosse chutar diria que é mesmo a tuberculose, já que ela pode ser silenciosa, pode surgir sem necessidade de fatores genéticos (ou seja, não precisa ser herdada na família, afinal não vimos nenhum Uchiha com a doença do Itachi!), não debilita imediatamente da mesma forma que um câncer e pode levar à morte se não for bem tratada.

Por fim é importante dizer que não podemos afirmar que toda vez que esses sintomas aparecem significa que a pessoa tem alguma dessas doenças, muito menos que todos os personagens de anime apresentados tinham alguma delas, fizemos aqui apenas um exercício de análise para criar hipóteses.

Se você lembrar de mais personagens que a doença dos animes ou tem alguma explicação para ela pode deixar nos comentários que vou ler sempre!


Até a próxima postagem!

A Ciência de Dr. Stone - Parte 7: Armas de Guerra

Por Phos em sábado, 16 de julho de 2022

 Hora de começarmos a parte 7 da série de postagens sobre a Ciência de Dr. Stone! No final desse post você pode conferir o link para as outras partes. 

Hoje comentarei sobre as invenções feitas durante a Guerra de Pedra, um evento que vimos na segunda temporada do anime.


Acho que o melhor ponto para começar é falando sobre a tecnologia a vapor. Essa tecnologia foi tão importante para a humanidade que ela definiu toda uma era, a Revolução Industrial foi o começo de muitas coisas que temos hoje em dia, como o estilo de produção das fábricas, o funcionamento das empresas, etc..

Para entendermos como essa tecnologia funciona, vamos falar sobre vapor.

Lá na escola aprendemos que a matéria pode ocorrer em três estados: sólido, líquido e gasoso. Estudando um pouco mais descobrimos que esses estados têm a ver com a quantidade de energia que os átomos daquela matéria possuem. Com pouca energia, os átomos ficam quase parados e isso quer dizer que o material está sólido; com uma energia intermediária os átomos se mexem um pouquinho, indicando que o material está líquido; e quando há muita energia, os átomos se mexem freneticamente e isso indica que o material está em estado gasoso.


O vapor é o nome dado a uma substância no estado gasoso. Normalmente usamos essa palavra para o estado gasoso da água, mas existem vapores de várias outras substâncias. Como nessa postagem iremos falar apenas de vapor de água, vou suprimir e chamar só de vapor. Como os átomos no vapor estão se mexendo freneticamente, eles precisam de muito mais espaço, por isso o estado gasoso ocupa muito mais espaço que o estado líquido e o sólido. Essa é a chave da tecnologia a vapor.

Quando esquentamos a água líquida, ela vira vapor e se expande, ou seja, ela começa a empurrar tudo a sua volta em busca de espaço. O que precisamos fazer é montar um sistema que se aproveite dessa força exercida pela expansão do vapor para realizar alguma tarefa.

Vou usar até o diagrama mostrado no mangá, que consiste em um pistão ligado a uma roda:

Os passos são os seguintes:

  1. O pistão está no alto com a sua outra extremidade presa à roda.
  2. O vapor entra na câmara empurrando o pistão para baixo, assim o pistão move a roda.
  3. A câmara se mexe e o próprio movimento da roda empurra o pistão para cima de novo, expulsando o vapor.
  4. A câmara volta à posição normal com o pistão no alto para reiniciar o ciclo.

E assim é possível fazer com que rodas girem, entre muitas outras aplicações!

Com essa básico pronto, tudo que é preciso fazer é aprimorar os entornos e foi o que Senku e seus amigos fizeram. Eles usaram esse mecanismo a vapor para fazer um veículo móvel, depois bastou equipá-lo com blindagem para transformá-lo em um tanque de guerra, o Gorila de Vapor.


Já que citei o canhão, vamos para a próxima tecnologia: a arma do canhão.

A expansão do vapor é rápida, mas existe uma outra ainda mais veloz: uma explosão. Uma explosão é uma expansão rápida de gases, que também saem empurrando tudo que está pela frente. O tanque de guerra do Senku usa uma explosão para empurrar o projétil de seu canhão, a chave está no mecanismo que vou explicar abaixo, antes é bom terem em mente o próprio esquema mostrado no anime:


No tanque de baixo temos água, que recebe uma descarga elétrica, dando origem ao processo de eletrólise: a eletricidade separa as moléculas de água, gerando hidrogênio e oxigênio. O hidrogênio é inflamável e explode quando exposto a uma fagulha. É essa a explosão em alta velocidade que empurra o projétil como um tiro. Existe um desafio interessante aqui: como evitar que o gás hidrogênio escape antes de acender a fagulha, mas ao mesmo tempo não destruir o tanque na hora da explosão? Senku resolveu esse problema fazendo um buraco no tanque e cobrindo ele com uma folha de borracha, assim ele isola o gás lá dentro e, na hora da explosão, simplesmente se rompe, deixando toda a pressão escapar pelo tudo do projétil. A única desvantagem é que a cada novo tiro é preciso trocar a borracha. Ah, e já entenderam por que precisa ser de borracha? Respondeu certo quem pensou que é porque o gás expande!

A munição do canhão para esses tiros normais é simplesmente uma grande e dura bola, porém vimos uma variação bem curiosa que chamaram no mangá de tiro falso, e eu chamaria de bomba de efeito moral. Esse é um tipo de bomba que não causa danos diretos, serve apenas para amedrontar ou desestabilizar o alvo.

A bomba de efeito moral de Senku possui o esquema abaixo:

(Por falta de tempo não consegui editar a parte em japonês, abaixo deixei a descrição)

Ela é uma lata cheia de materiais combustíveis, como pó de carvão e álcool. Dentro há ainda um frasco de vidro cheio de ácido sulfúrico, e do lado de fora desse frasco há vários pedaços de ferro. Quando a bomba é disparada e atinge o alvo, o frasco de vidro quebra, fazendo com que o ácido sulfúrico entre em contato com o ferro: essa reação faz com que haja ignição nos combustíveis, causando uma pequena explosão. Vou ser sincero com vocês, eu não sei e nem achei nas pesquisas como essa reação levaria a uma explosão, ácido sulfúrico e ferro reagindo não liberam chamas ou algo do tipo, talvez libere calor o suficiente para acender o álcool, só que não achei informações sobre isso. Se alguém souber me diga nos comentários.

O importante é que haja a ignição do combustível, pois o som da pequena explosão e as chamas são o que causam o efeito assustador, intimidando aqueles que pensarem que vão presenciar uma explosão destrutiva.

Falando em som, vamos falar do canhão de som.

O segredo dessa arma está no seu formato. Aquela forma de antena parabólica é chamada de côncava, ela possui a propriedade de pegar qualquer tipo de onda que atingir o seu interior e direcionar para um ponto específico que chamamos de foco. É por isso que, numa antena parabólica, se coloca o receptor exatamente nesse foco, assim a antena capta todos os sinais de TV e colocam certinho onde ele tem que ir. O desenho abaixo deve simplificar o entendimento:


Da mesma forma que o processo funciona de um lado ele pode funcionar ao contrário. Se você emitir algo a partir do foco as ondas atingirão a antena e se espalharão, assim como mostrado no anime e mangá. É claro que lá eles exageraram um pouco para causar um efeito mais dramático, quem já foi em algum show ou viu um carro alegórico sabe que é preciso uma caixa de som bem maior para que as ondas sonoras sejam realmente incômodas.


Por fim, vamos falar sobre uma tecnologia que é realmente destrutiva em larga escala.

Lembram-se lá do começo quando Senku fez sabão? Pois bem, em um dos jeitos de fazer sabão normalmente se mistura algum tipo de óleo (como o óleo usado de cozinha ou gordura) com soda cáustica (hidróxido de sódio). Óleo ou gordura são fáceis de encontrar e a soda cáustica já vimos como faz (lá na parte 3), então é fácil para Senku fazer o sabão usando esse método. Os produtos da mistura dessas duas substâncias é o próprio sabão e mais uma coisa: glicerina, que é um tipo de óleo viscoso.

Para continuarmos o processo para a criação da tecnologia realmente destrutiva vamos precisar de mais dois ácidos. O primeiro é o ácido sulfúrico, que já vimos também lá na parte 3 e sabemos que Senku o obteve nas fontes termais. E o segundo é o ácido nítrico, uma das primeiras descobertas lá dos primeiros capítulos (por isso vimos na parte 1), obtido com o cocô de morcego (guano). A mistura de glicerina com os ácidos sulfúrico e nítrico gera... nitroglicerina!


A nitroglicerina também é um líquido oleoso, mas com uma propriedade bem interessante: é bastante explosiva! E nem é preciso dar ignição com fogo nela, é possível detoná-la simplesmente com uma pancada forte o suficiente! Um químico sueco chamado Alfred Nobel descobriu que alguns materiais absorvem a nitroglicerina como se fossem uma esponja, criando o que hoje conhecemos como dinamite! Esse mesmo químico, arrependido de ter inventado algo tão destrutivo, deixou em seu testamento que parte de seu dinheiro deveria ser usado para criar uma fundação que daria prêmios às pessoas que mais contribuíssem para o desenvolvimento da humanidade, criando assim o Prêmio Nobel. (Depois de escrever essa história do Nobel é que eu fui lembrar que ela é contada em Dr. Stone!)


Enfim, depois de criar a nitroglicerina tudo que Senku precisou fazer foi desenvolver o produto que iria absorvê-la para criar explosivos. O uso mais legal que vimos foi na forma de aviões de papel embebidos de nitroglicerina, portanto eram como explosivos voadores. Ukyo, inclusive, usou um pedaço de papel com nitroglicerina na ponta de suas flechas. Depois ele também criou dinamites do jeito que conhecemos, em tubos informalmente chamados de "bananas". Esse formato é bom porque ele pode ser enfiado dentro de buracos em pedras ou no chão, o que nos leva a um uso que não seja só para a guerra, afinal dinamites podem ser usadas para remover obstáculos, abrir passagens ou fazer buracos (o uso que Senku deu, inclusive).


Com isso terminamos o que foi adaptado para anime até agora! Ainda estou pensando se continuo baseado no mangá ou se espero mais anime. Provavelmente será a primeira opção!

Confira todas as partes que já fiz (é só clicar na imagem):


https://universoanimanga.blogspot.com/2018/12/a-ciencia-de-dr-stone.html
Parte 1
https://universoanimanga.blogspot.com/2019/12/a-ciencia-de-dr-stone-parte-2.html
Parte 2
https://universoanimanga.blogspot.com/2020/01/a-ciencia-de-dr-stone-parte-3-remedio.html
Parte 3: Especial da criação de Remédios

https://universoanimanga.blogspot.com/2020/03/a-ciencia-de-dr-stone-parte-4.html
Parte 4

https://universoanimanga.blogspot.com/2020/04/a-ciencia-de-dr-stone-parte-5-especial.html
Parte 5: Especial da criação do celular
Parte 6 



Parte 7: Armas de guerra


Parte 8


Até a próxima postagem!